sexta-feira, 18 de maio de 2012

Igreja lotada

O relógio no alto do edifício Itália marca 20h. 10º. A missa começa. O interior da igreja está completamente lotado – “Tinham que fazer um igreja maior”, diz um homem com o filho no colo – e há cerca de duzentas pessoas do lado de fora, que se espalham pelas duas rampas laterais. São homens e mulheres, crianças, adultos e velhos, em sua maioria bem arrumados e de banho tomado.

No meio desse turbilhão, destaca-se um casal de bêbados, que participa ativamente da missa, seja cantando ou fazendo comentários absurdos, para a indignação dos seguranças do local.

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Desenvoltura digna de um astro de rock

“Hey, hey, hey, Jesus é nosso rei”, é o que diz uma canção do padre Manzotti, num estilo que parecia da jovem guarda. Muitas pessoas choram, se emocionam, cantam e fazem coreografias com as mãos. “Agora só nas palmas!”, incendeia Manzotti.

Em certo momento, o padre pergunta ao público: “Valeu a pena chegar 1 hora antes?” E a multidão – vinda de bairros distantes, da região metropolitana e outras cidades – responde em alto e bom som: “Valeu!”

Medalhinhas de Nossa Sra. são distribuídas e disputadas quase aos tapas pelos fiéis. Mas além das medalhinhas há outros artefatos que podem ser adquiridos durante a missa. Do lado de fora da igreja há uma barraquinha que vende desde camisetas de Reginaldo Manzotti, bem como seus cds, livros e bonecos “Manzottinho” (confeccionados em tecido, com fragrância de jasmim).

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ONIPRESENÇA QUASE DIVINA

Às 20h50 é celebrada a eucaristia e as hóstias são distribuídas até para quem está do lado de fora da igreja. Na verdade o fato de ter gente para fora é tão normal que por ali também há caixas de som. Quem não pode ver a missa direito, pelo menos ouve bem as músicas e orações.

Já no finalzinho do ritual, após mais algumas bênçãos, o padre faz um último lembrete: ” e quem puder, não deixe de acessar nosso site: www.padrereginaldomanzotti.org.br !

É o esforço de Manzotti, “o padre Marcelo de Curitiba”, para atingir uma onipresença quase divina. Seja na igreja, na televisão, no rádio ou na internet, só dá ele.


Dez.2007 - reportagem especial "Essa missa é um show!" da edição zero do TiraGosto por Franco Caldas Fuchs

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O PECÚLIO DE LÚCIFER


pub. dia 07/04/2009 por Léo Gluckgluckose@hotmail.com
Enquanto existir, por efeito das leis e dos costumes, uma condenação social, que produza infernos artificiais no seio da civilização, e desvirtue com uma fatalidade humana o destino, que é inteiramente divinal; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado - a perdição da mulher pela fome - a atrofia da criança pelas trevas - não forem resolvidos; enquanto em certas regiões for coisa possível a asfixia social; ou, noutros termos, e sob aspecto mais amplo - enquanto houver na terra ignorância e miséria, não serão os livros como este, de certo, inúteis.

Hauteville House, 1 de janeiro de 1862.

VICTOR HUGO - Os Miseráveis


Sobre mim, neste instante, desce um tal orgulho de não pertencer à classe dos indignos de coração. À classe dos que fazem de tudo por dinheiro, dos que se arrastam na miséria em busca do tesouro, dos que inopinadamente galgam alguns degraus na porca e hedionda hierarquia da pecúnia e acham normal mostrar a todos os outros que os cremes nos quais se besuntam custam mais caro que todo o lar que a massa ignara demorou uma vida para pôr de pé. Quando eu penso que não sobra dessas pessoas um único fio de cabelo sem lama grossa que indique um fim de vida mediano ou talvez uma opaca luz no fim do túnel, me ponho a classificar a raça humana como um dos grandes erros da História Clássica.

Ninguém me faz pensar que os dinossauros arrastariam as carcaças enormes e de aura límpida atrás de miseráveis contas públicas ou que as teriam treinado para suportar a necessidade de ir tão baixo em sua existência.

Nós somos um erro. De cálculo, de tempo e de espaço. Nós viemos para esse mundo para brigar por coisa pouca, por mesquinharia, por pequena estupidez. Não fazemos o mínimo uso do que temos de maior, mas, por nossa vez, fazemos total uso do que temos de menor. E, o que agrava tudo, o fazemos para “obter” o que há de menor. Talvez eu idealize a coisa toda romanticamente, mas fato é que não passa um dia sem que o ‘vil metal’ não nos assole a todos com os mínimos problemas que somente ele cria e que nós jamais resolveremos. Tempos faustianos imemoriais, quando já a alma é facilmente negociável e o corpo é facilmente removível; podemos dispor de tudo! Não sobra nada, tudo foi transacionado. O que significará empunhar, altivamente, a autêntica bandeira de quem disse todas as letras de vocabulário próprio e não vendeu, trocou, escambou, permutou, pernoitou (as prostitutas, essas sim são gente digna, cuja ofensa - se a há - tem somente o corpo como destino), escudou ou esfalfou nenhuma? Temo a resposta. Tenho asco, engulhos e vontade de vomitar nauseabundamente quando penso que foi para isso que viemos.

Não, douto leitor, não foi para amar e ser amado que você veio. Eu sinto muito. Foi para pedir emprestado tudo o que você não consegue roubar. Foi para roubar tudo o que você não consegue legítima e nobremente possuir. Foi para não possuir o que você não consegue enxergar. Foi para não enxergar o que você não consegue imaginar. Foi para não imaginar o que você sequer considera. Foi para não considerar o que te é de pouco valor. Foi para pouco valorizar o que você empresta. Tudo se resume num papel descorado e gasto cujas letras ninguém lê, porque ler, meu caro, é o menos importante.


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SPIRIT, DE FRANK MILLER



pub. dia 16/03/2009 por Gladson Fabian - fabianjournalsociety@yahoo.com.br

Contrariando as expectativas sobre o filme do adorado personagem de Will Eisner, o filme Spirit ficou dentro do que podemos esperar de um personagem sem pretensões, criado pelo genial escritor e desenhista norte-americano, criador da moderna forma de contar histórias em quadrinhos.

Para aqueles que esperam uma narrativa gráfica no mesmo alto padrão que Eisner, podem se decepcionar com o roteiro de Frank Miller, afeito a narrativas secas e diretas, bem ao estilo realizado por ele em seus trabalhos de Sin City, a cidade do pecado criada para suas histórias policiais estilo “noir”.

Contando com a boa presença de Samuel L. Jackson no papel de Octopus o arqui-inimigo de Spirit, o filme conta com um roteiro despretensioso, assim como nas histórias curtas contadas pelo falecido gênio dos quadrinhos em mais de 50 anos de Spirit, e nos apresenta um roteiro quase ingênuo, com belas mulheres e cenas de luta um tanto cômicas, retiradas do velho estilo de fazer heróis nos gibis da década de 1940.

O próprio Eisner há muito tempo abandonou sua criação mais famosa, por saber que ela está fadada a temporalidade, e o filme soa mais como uma homenagem ao seu criador, feito pelo homem que mais entende de quadrinhos e narrativa gráfica na atualidade. Miller nos dá uma amostra de seu talento em cenas e planos que carregam nos contrastes e assinam sua forma de fazer cinema, que soa como arte para alguns e repetitiva para outros.

Spirit é uma produção feita na medida para que adultos e crianças possam assistir lado a lado, pois se os fãs do herói e, principalmente do seu criador, Will Eisner, querem saber como o personagem seria em carne-e-ossos, Frank Miller se mostrou fiel ao seu mestre. E para as crianças, acostumadas a violência na TV e nos games, aqui temos uma versão caricata dessa violência urbana, com arquétipos de heróis, mocinhas e vilões sem nuances de cinza, deixando claro que o filme não pretende ser uma obra-prima para críticos e cinéfilos fãs de Godard, mas duas horas de diversão sem compromisso.

É nisso que residia toda a força do trabalho de Eisner: saber separar a arte feita para iluminar mentes daquela feita apenas para divertir. 

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O SPIRIT DE QUEM, MESMO?

pub. dia 16/03/2009 por Joba Tridente - jobatridente@hotmail.com

O ano 2009 talvez fique marcado pela adaptações cinematográficas dos clássicos dos quadrinhos como Watchmen (de Alan Moore) na visão de Zack Snyder e The Spirit (de Will Eisner) na visão de Frank Miller.
No entanto, se em Watchmen, de Zack Snyder, é possível encontrar algumas qualidades, no desastrado The Spirit, de Frank Miller, encontra-se apenas o marasmo, o equívoco, a galhofa, a caricatura do adorável personagem de Will Eisner (1917-2005).

The Spirit, o filme é, digamos… Então, tem aquele celular em 1940… Ah, tem também aquela cena do laptop… Deixa eu ver, acho que tem uma músiquinha… Ah, tem as gags de desenho animado… Nas mãos estranhas de Frank Miller, que até prometia, na co-direção de Sin City, The Spirit é contrangedor. E olha que Miller assinou contrato para mais dois filmes do personagem. Will Eisner que se cuide na tumba ou, já que Spirit faz companhia a ele no mundo dos mortos, que o envie à Terra em missão boicote.

Muito se fala da estética de The Spirit ser semelhante à de Sin City. Eu diria estar mais para genérica. Mas esse nem é o problema maior de The Spirit, já que a maior influência de Miller, nas suas irrepreensíveis HQs, foi Will Eisner, com seu jeito cinematográfico de desenhar e escrever uma boa história cheia de contradições humanas e por isso verdadeira. O problema desta adaptação é que não há adaptação, apenas embromação. O que se vê na tela é praticamente um Spirit inventado por Frank Miller. Algo como se ele tivesse ouvido falar de um personagem genial que parecia ter vivido aventuras assim e assado mas não se tinha muita certeza e então, com um, digamos, “roteiro” do espírito doido, se pôs a filmar. Como se lhe bastassem lembranças esparsas de um personagem de HQ, herói de ocasião e irônico por natureza…, porém boa gente. Tudo bem que HQ é HQ e cinema é cinema…, desde que seja cinema. Frank Miller é um dos maiores mestres da narrativa, mas em HQ. Aqui ele não sabia que tinha tanta casca de banana pelo caminho.


The Spirit, personagem criado pelo genial Will Eisner em 1940 e aposentado em 1952, com diversas tentativas de voltar à ativa (em 1998, pelos geniais Alan Moore e Dave Gibbons, e em 2007, por Darwyn Cooke), é o policial Denny Colt, tido como morto, que “volta à vida” na pele de um investigador e apavora os vilões que agem principalmente, nas sombras, em Central City. Temido pelos malvados, perseguido por vilões, amado pelas mocinhas e vilãs maliciosas, Spirit é um “herói” às avessas. Em meio a crimes, romances, mistérios, ele apanha muito, também bate, mas acaba solucionando os casos mais estranhos com tiradas geniais, filosóficas, com humor ferino…, mas divertido. The Spirit, de Will Eisner, merece uma releitura melhor.

The Spirit, o filme traz Gabriel Macht, na pele do herói, Dan Lauria (Comissário Dolan), Sarah Paulson (Ellen Dolan) e os vilões: Samuel L. Jackson (Octopus), Scarlett Johansson (Silken Floss), Eva Mendes (Sand Saref) e Paz Vega (Plaster de Paris)…, nenhuma atuação que mereça algum destaque.
The Spirit não é um filme para fãs do personagem ou até mesmo para quem ouviu falar dele, já que é ridículo demais para ser levado a sério. Mas os desavisados podem até gostar.